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Artigos históricos

Guerra do Paraguai: Todos só falam em Maurity

Publicado em: 19/06/2013

Luís Severiano Soares Rodrigues
Economista, pós-graduado em história, sócio correspondente do Instituto Histórico e  Geográfico de Niterói, conselheiro consultivo do Instituto Cultural D. Isabel I, A Redentora e membro do Instituto de Pesquisa Histórica e Arqueológica do Rio de Janeiro (Ipharj)


O processo de criação e consolidação das instituições, bem como a sua constante atualização, só é possível com o concurso de indivíduos imbuídos nesse mister de serem membros de um corpo preparado para, quando necessário, realizar com eficiência e eficácia, aquilo que dele se espera. E numa instituição como a Marinha Brasileira, que se confunde com a nação brasileira e esta fadada a existir enquanto houver a pátria brasileira, o cumprimento dos seus objetivos, se dá pelo constante diálogo de gerações que se sucedem no seu comando, ao longo da sua existência, através da camaradagem que uni os homens e mulheres de marinha aos longo de suas carreiras, principalmente pelos exemplos positivos, que as novas gerações de obrigam a perpetuar.

Nessa perspectiva, podemos exemplificar num momento crucial da vida brasileira, como foi a guerra do Paraguai, o quanto uma geração de jovens oficiais, como os futuros almirantes Saldanha da Gama, Custódio de Melo, barão de Jaceguai, Alexandrino de Alencar e Cordovil Maurity, entre outros, aprenderam e se motivaram com o desprendimento e a dedicação de seus comandantes como o marquês de Tamandaré, o visconde de Inhaúma, o barão do Amazonas e o barão de Angra, entre outros oficiais superiores.

Um caso a se destacar é o do almirante Joaquim Antônio Cordovil Maurity, nascido na cidade do Rio de Janeiro a 13 de janeiro de 1844, filho de Jacob Maria Maurity, português, e de Joaquina Eulália Cordovil de Siqueira e Melo, esta do clã dos Cordovil, célebres provedores da fazenda real ao tempo dos vice-reis, aos quais se deve o bairro de mesmo nome na cidade do Rio de Janeiro, onde se localizava o engenho do provedor, como nos conta o saudoso genealogista, Dr. Waldyr da Fontoura Cordovil Pires. O alte. Cordovil Maurity teve cinco irmãos e irmãs.

Ingressando na Academia de Marinha em 1860, após passar pelo imperial colégio de Pedro II, em 1862 é guarda-marinha, em 1864 2° tenente da Armada. Tendo o Império sido covardemente atacado pelos paraguaios, Cordovil Maurity já a 28 de janeiro de 1866 se encontrava em Montevidéu, se preparando para entrar em combate, no esforço de guerra que faria os paraguaios pagarem caro a ousadia de invadirem o solo sagrado do Império do Brasil.

Cordovil Maurity participou de várias operações onde o poder de fogo da Armada se fez necessário, desde o bombardeio do forte de Itapiru, a passagem do Passo da Pátria, os ataques às fortalezas de Curuzu e Curupaiti, tendo no primeiro caso participado da ação conjunta com o exército na formação da cabeça de ponte, para desembarque das tropas para a tomada daquela fortaleza. No reconhecimento e ataque a Curupaiti, mesmo ferido em combate, sustentou à frente de sua nave o bombardeio àquela fortaleza, merecendo elogio na ordem do dia do seu comandante. A essa altura Maurity já era 1° tenente, no entanto o divisor de águas na sua carreira foi à passagem de Humaitá.

A fortaleza de Humaitá, até então inexpugnável, era o principal objetivo da guerra e a passagem por ela seria o primeiro passo para a sua tomada e destruição. Após a sua tomada o ditador paraguaio só faria recuar até a derrota final. Assim, na operação para a passagem por ela, coube ao tenente Cordovil Maurity comandar o monitor Alagoas, do total de quatro monitores em um total de seis embarcações envolvidas na operação.  Nesse combate os navios brasileiros tinham de atacar a fortaleza, manterem-se fora do alcance da mesma e defenderem-se das chatas artilhadas e canoas que os paraguaios usavam para tentar aborda-los. Seguia o Alagoas unido ao Bahia, conseguem os paraguaios, separa-los, segue então o Alagoas, só tentando pela segunda vez passar o obstáculo, tendo dificuldade no seu deslocamento o comandante da esquadra sinaliza para o Alagoas fundear, ao que o 1° tenente Maurity não toma conhecimento e tenta a terceira investida, conseguindo passar, mas o navio é atingido pelo fogo da fortaleza, um segundo tiro certeiro avaria a máquina do navio que, a deriva, retrocede rio abaixo sob fogo inimigo, num esforço hercúleo sua tripulação conserta as avarias, para pela quinta vez investir contra Humaitá, certamente, tendo os paraguaios não acreditando, ser aquilo possível.

Dessa vez o Alagoas passa definitivamente pela fortaleza, até então inexpugnável e que ao término da guerra será apenas ruínas, para os paraguaios se lembrarem da mão pesada do Império. Mas rio acima o Alagoas ainda deparar-se-ia com muitas canoas tentando abordá-lo, mas sua tripulação protegida no seu interior abrira a metralha e encheram o rio Paraguai de corpos paraguaios e afundam as ditas canoas. Rio acima força a passagem de Timbó, posição mais modesta dos paraguaios, mas não menos temível para uma embarcação seriamente atingida quanto o Alagoas. Ao fundear nas águas do Taií, se contabilizou 200 acertos paraguaios no casco do mesmo, tendo o navio de ser encalhado para não afundar e poder ser reparado. A insistência de Maurity em vencer o obstáculo, mesmo correndo todos os riscos, fez com seu nome passasse a ser conhecido em todos os quadrantes do Brasil, e também aos olhos dos seus comandantes, como homem de coragem e determinação. Como vemos nas palavras do Visconde de Inhaúma, ao dirigir-se a Armada: “em nome, pois da nação brasileira, da honra e do brio, dirijo meus louvores ao senhor Chefe da 3° Divisão, aos bravos comandantes, oficiais e guarnições que os acompanharam tornando-se mais salientes e, por conseguinte digno de colher a mais importante parte dos louros da vitória, o senhor Primeiro-Tenente Maurity, comandante do Alagoas, pelo seu belo e muito especial comportamento nesse dia”, apud. Cordovil Pires, pag.21. Vale ressaltar também ter Maurity granjeado também a simpatia e a admiração do comandante em chefe da tropas aliadas, o sr. Marquês de Caxias.
 
As proporções que tal fama atingiu, podemos medir pelas palavras do visconde de Taunay em suas Memórias, quando fala do seu retorno aos campos paraguaios, após a retirada da Laguna, dessa vez como secretário do marechal conde d`Eu, comandante em chefe das forças aliadas na última fase da campanha: “o meu objetivo era a glória, glória em todos os sentidos, militar, literário!... Pensava, então, poder subir, subir muito alto, tornando-me conhecido em todo o Brasil, assim uma espécie de Maurity, cujo nome era tão aclamado desde a célebre façanha na passagem pelas baterias de Humaitá, a 18 de janeiro de 1868”. “Era, com efeito, difícil gozar de mais popularidade do que este oficial da marinha. (...) Naquele tempo, porém, não se falava senão em Maurity, e por toda a parte, cidades do litoral e do interior o aclamavam e davam-lhe brilhantes e seguidas festas”, pag. 315.

Em outras homenagens, vemos 15 marcas de cigarro com seu nome em Pernambuco, inclusive a da fábrica Araújo que na embalagem estampa o seu retrato sendo coroado com louros, e em baixo uma faixa o seu nome e patente Capitão-tenente Joaquim Antônio Cordovil Maurity. Pelo decreto n° 1613 de 10 de julho de 1869 é concedida ao barão da Passagem (Delfim Carlos de Carvalho) chefe de divisão e ao Capitão-Tenente Cordovil Maurity uma pensão anual de 1:200$000, pelo extraordinário feito na passagem de Humaitá. Pelo seu intrépido valor, fez Maurity jus as Imperiais Ordens: de Cristo, da Rosa, do Cruzeiro e de São Bento de Aviz, recebeu também a Medalha Geral da Campanha do Paraguai, a Medalha da Passagem de Humaitá, as medalhas da campanha do Paraguai das repúblicas, nossas aliadas, Argentina e Uruguai, e ainda o Mérito Militar.

Ao terminar a Campanha do Paraguai, Maurity já é Capitão-Tenente, chegando a Almirante em 1903. Sua carreira foi um constante ascender, tendo exercido várias e digníssimas comissões, além de cargos e em associações recreativas e de estudos de sua profissão, pois veio a ser o segundo presidente do Clube Naval, de 19/04/1885 a 11/06/1886, quando ainda era capitão de mar-e-guerra, além de figurar entre os sócios fundadores do mesmo. Na carreira realizou viagens de estudo e aperfeiçoamento, notadamente no campo da artilharia naval. Representou o Brasil na conferência Marítima em Washington, para onde foi, em 1889, com carta de recomendação do Imperador ao cientista Louis Agassiz, onde SMI diz “é dos mais distintos oficiais da marinha do meu país, comandava o pequeno monitor Alagoas, que cortou sob o fogo das baterias da fortaleza de Humaitá a corrente que barrava o rio Paraguai. Ele vai assistir à conferência marítima e eu vô-lo recomendo vivamente” (Cordovil Pires, pag.21). Vale ressaltar que o cmg Maurity, em função dessa viagem para os EUA, não viu o golpe de Estado que implantou a república no nosso país, e por coincidência estando o alte. Saldanha da Gama em viagem ao oriente estava a marinha naquele momento, sem os dois expoentes que poderiam organizar um contragolpe, como declarou o próprio Saldanha da Gama. Estando o estado de coisas consumado, e a marinha resignada, os republicanos tratam logo de eleva-lo ao almirantado já em 1890, talvez para lisonjeá-lo e não dar margem a insatisfações, em função da promoção de eventuais adesistas, sem os mesmos méritos que ele. Em 1892 assume a vice-presidência do Conselho Naval, em abril do mesmo ano assume o comando da 1° Divisão Naval até março de 1893, neste mesmo ano vemo-lo novamente nos EUA, como presidente da Comissão Brasileira na Exposição Colombiana na Pennsylvania, estando, portanto, Maurity longe, quando se deflagra a Revolta da Armada contra o governo inconstitucional do mal. Floriano, que ardilosamente e com o apoio dos americanos vence os revoltosos e os persegue e manda assassinar. Revolta essa onde o alte. Cordovil Maurity perdeu muitos amigos e leais colegas, entre eles o alte Saldanha da Gama e o cmg Frederico Guilherme de Lorena.

Serenado o tão tumultuado e sangrento parto da república, que não foi a dos sonhos de ninguém, e quem sabe seja um pesadelo até hoje, dadas as condições atuais de violência e corrupção no nosso país. Pôde o alte. Maurity dar o seu concurso para o engrandecimento da Marinha, que tanto sofreu por ter permanecido monarquista. Ao longo de sua carreira comandou os seguintes navios: Lima Barros, Bahia, Javari, Aquidaban, Goiaz e o Riachuelo (Palha, pag.342). De sua visão profissional publicou os seguintes trabalhos: Material Flutuante da Armada Nacional e o folheto Artilharia Naval. Na sua direção à frente da Repartição da Carta Marítima, são construídos vários faróis na costa brasileira, são eles: Macaé, Castelhanos, Ilha da Paz e Ponta do Boi, estando Maurity presente a inauguração de quase todos eles.

Em 1906, assume a chefia do Estado-Maior da Armada. Em 1907, juntamente com o Ministro da Marinha, alte Alexandrino de Alencar, terão a grande honra de presidir as comemorações do 1° centenário de nascimento do alte Marquês de Tamandaré, grande e venerado líder da marinha, e que ambos conheceram em vida e certamente dele receberam exemplos, que nortearam suas próprias vidas pessoais e profissionais, com destaque para a sua fidelidade aos seus princípios de honra e lealdade, e por conseguinte, coragem para enfrentar todos os obstáculos na defesa dos seus ideais e valores. Estavam ambos presentes na inauguração do busto do grande marinheiro na Avenida Beira-Mar em 13/12 daquele ano.

Em agosto de 1908, assumindo o comando em chefe da armada, realiza grandes manobras de instrução e aperfeiçoamento em alto-mar à altura do litoral norte do Estado do Rio de Janeiro. Em março de 1909, deixa o comando do Estado-Maior, para se dedicar a chefia da Comissão de Fiscalização da construção de navios na Europa, entre eles os encouraçados Minas Gerais e São Paulo, que marcam o reaparelhamento e modernização da marinha, e serão o orgulho da marinha por muitos anos.

O almirante Joaquim Antônio Cordovil Maurity, faleceu em 06/01/1915, cercado pelo amor dos seis filhos que teve com sua esposa dona Lucia Brett Maurity, dos quais todos foram cidadãos valorosos e de algum modo concorreram para a grandeza do Brasil. Em sua homenagem, a cidade do Rio de Janeiro batizou a rua lateral à fábrica de gás do visconde de Mauá, de Rua Comandante Maurity.

Nesses tempos difíceis em que vivemos, onde nós brasileiros passamos grandes adversidades no tocante a formação dos valores superiores que motivam o cidadão comum ao fiel cumprimento do dever de cada um de ser íntegro e leal a si próprio e ao seu semelhante, para a construção de um país justo e fraterno, aproveito para reproduzir as palavras de Américo Palha, sobre Maurity, no seu – Soldados e Marinheiros do Brasil: “O almirante Maurity teve uma grande vida. Toda ela foi consagrada à pátria, sem preocupações políticas. No Império e na república, ele foi um patriota de alta estirpe. Nomes como o desse insigne soldado do mar, não honram somente uma corporação, honram e dignificam a própria Nação. E Maurity falecido a 6 de janeiro de 1915, é, sem dúvida, uma das glórias mais puras do Brasil, e sua vida, um padrão para a mocidade da nossa grande terra”.
                                  
                                        
Bibliografia:
Bittencourt, V.Alte. Luiz Edmundo Brígido. A Marinha Imperial na Guerra do Paraguai não foi só Riachuelo. Antônio de Oliveira Pereira Editor – Rio de Janeiro – 2011.
Carvalho, Alte. Antônio Maria de. Histórico do Clube Naval de 12/04/1884 a 11/06/1968. Baptista de Souza & Cia – Editores – Rio de Janeiro – GB – 1968.
Gerson, Brasil. História das Ruas do Rio. 5° edição. Lacerda Editores – Rio de Janeiro – 2000.
Leite, Mario Eduardo. Paradoxos de uma cidade: O Rio de Janeiro por dois fotógrafos. Universidade Federal do Ceará – Campus do Cariri -  s/d.
Palha, Américo. Soldados e Marinheiros do Brasil. Biblioteca do Exército Editora – Rio de Janeiro – 1962.
Pires, Waldyr da Fontoura Cordovil. Cordovil suas origens, a família, o bairro. Edição do Autor – Rio de Janeiro – 2000.
Souza, Embaixador Carlos Alves de. Um Embaixador em Tempos de Crise. Livraria Francisco Alves Editora – Rio de Janeiro – 1979.
Taunay, Visconde de. Memórias. Biblioteca do Exército Editora – Rio de Janeiro- 1960.
Periódico – Noticiário Marítimo Jan/1908, pag. 991 – 1002.
Fontes eletrônicas:
www.senado.gov.br/legislação
www.faroisbrasileiros.com.br/farois
www.archive.org/stream/.../catalogodosmapp00nacioj00j_djvu.txt
www.worthpoint.com/worthopedia/1893_columbiam_exposition_wfs_pennsylvania_brazil



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