Documento sem título
Documento sem título
  
  
  
  
  
  
  Monarquia
Tire suas dúvidas
Símbolos
Núcleos Municipais
Uniformes Militares
  Agência Monárquica
Notícias
Artigos históricos
Artigos políticos
Agenda monárquica
Colunas
Aniversários
  Biblioteca
Documentos
Livros
Vídeos

 

 

Documento sem título



Colunas

"O Discurso do Rei": um contraponto entre a tirania e a monarquia

Publicado em: 09/05/2011

Edvaldo F. Esquivel é baiano, jornalista e estudioso
da monarquia brasileira


É o contexto mais interessante da trama tão oportunamente revelada ao público brasileiro, neste belo filme dirigido por Tom Hooper. Ressalto este contraponto, neste comentário que faço especialmente para os leitores da Gazeta Imperial, por considerá-lo a espinha dorsal de “O Discurso do Rei” (The King´s Speech). Refiro-me à intercalação  no filme de um trecho de documentário de época que mostra um dos inflamados discursos do ditador Adolf Hitler ao povo alemão. A metáfora é perfeita para a compreensão deste filme premiado este ano com quatro Oscar da Academia Cinematográfica de Hollywood, incluindo os de melhor filme, diretor, roteiro original e ator.

O espectador, naquele momento em que aparece o trecho do documentário em preto-e-branco da propaganda nazista, já está suficientemente a par do drama vivido pelo personagem principal do filme, o príncipe Albert Frederick Arthur George, magnificamente vivido pelo ator britânico Colin Firth. O então príncipe de York, e depois rei da Inglaterra, George VI,  desde a infância convivia com um constrangedor problema de  gagueira que o impedia de falar em público. Bertie, como também era chamado em família, teve de recorrer com o incentivo da esposa, Elisabeth (a futura rainha mãe, interpretada pela atriz Helena Bonham Carter), aos serviços de um especialista da fala. O escolhido foi o plebeu australiano Lionel Logue, interpretado pelo ator Geoffrey Rush, que  dá  início a um interessante embate entre os dois.

Mesmo discordando de algumas colocações, cito a matéria “Rei por acaso” (Veja – 9/02/2011), da jornalista Isabela Boscov, publicada por ocasião do lançamento do filme no Brasil. Ela faz o seguinte comentário: “É penalizante a cena em que Bertie, então duque de York, tem de fazer um discurso na Exposição Imperial Britânica de 1925, diante de um mar de rostos divididos em expressões de paciência e de constrangimento”.  Em seguida, observa que as aflições de Bertie se agravavam com a questão dinástica, ou sucessória, considerando  o caráter do irmão mais velho (Eddie, que no decorrer de 1936 seria o rei Edward VIII). “Eddie era um playboy tolo, vaidoso e irresponsável. Às vésperas da morte de seu pai, George V, ele batia o pé que, uma vez coroado, faria da divorciada americana Wallis Simpson sua rainha,  o que só para começar, seria uma impossibilidade constitucional”, completa Isabela Boscov.

Embora o filme não dê destaque, o irmão mais velho de Bertie nutria umas simpatias meio estranhas pelo führer e pelo nazismo que, por certo, também dificultariam sua permanência no trono britânico. Uma agravante, portanto, não bastasse sua paixão submissa pela norte-americana Wallis Simpson. Tanto que já em 1937, após a abdicação em favor do irmão Bertie,  o casal já reduzido a duque e duquesa de Windsor foi visitar o ditador alemão em Berlim.

A história da gagueira de Bertie, visto como um fraco, absorve todo o filme “O Discurso do Rei”. A superação do problema era vista como um desafio que tinha a ver com força de vontade. E Bertie, já na condição de Rei George VI, contava com a ajuda do australiano Logue para perseguir os progressos necessários. E emergentes. Sim. A Segunda Guerra Mundial era questão de tempo, o plano dos nazistas era dominar a Europa, a invasão da Polônia era iminente. A Inglaterra, como a potência da época, opunha-se firmemente às ambições hitleristas; todas as investidas diplomáticas pareciam infrutíferas diante da determinação do führer. E chega o momento crucial: o Rei George VI teria de fazer o discurso histórico à nação, transmitido por todas as emissoras de rádio, no qual a Inglaterra declarava  guerra à Alemanha nazista!

É o desafio do rei. O teste definitivo do começo da cura da gagueira. É o ponto alto do filme. E também o contraponto a que nos referimos no início deste comentário. O espectador é levado a fazer uma reflexão nova. Ou seja:  se é que realmente  seria possível fazer tal comparação, jungir mentalmente os dois líderes, o Rei George VI e Adolf Hitler. Famoso pelo poder da oratória -- mesmo que hoje nos pareça por vezes patética  ou verborrágica --  o ditador alemão soube como nenhum outro líder tirar proveito político de seus pronunciamentos públicos e transmitidos pelo rádio, então o fenômeno da comunicação de massa da época.

E assim “O Discurso do Rei” parte com todos os méritos para o emocionante final e, por tabela, para a disputa dos Oscar 2010. A mensagem  do filme é de pura nobreza, independentemente de todas as qualidades técnicas da produção, inclusive montagem, fotografia, figurino e  trilha sonora.  O resgate, porém, está no roteiro original, que recorre ao passado para trazer aos dias de hoje a figura um tanto esquecida do Rei George VI. O monarca que conseguiu superar seus limites e fazer o discurso mais convincente e emocionante da Inglaterra. O pronunciamento que conseguiu unir todo um povo em volta do seu soberano para enfrentar outra guerra, contra outro tirano. Desta vez, ironicamente, com o poder da oratória e o dom de conquistar multidões. Ou, como quiserem, um mestre na arte de iludir.  A última cena é a da família real saudando os súditos, após o discurso, do balcão principal do Palácio de Buchkingam, que praticamente fecha a cortina do passado. Bem, no presente, após se assistir ao “Discurso do Rei”, contabiliza-se a figura desse monarca inglês agora redescoberto pela magia do cinema e que, sem dúvida , agiganta-se sozinho perante a História. A jornalista Isabela Boscov, apesar de “não ver majestade” no filme de Tom

Hooper,  reconhece: “George VI foi um soberano que, depois de um início vacilante, se alçou à altura dos acontecimentos que enfrentou, e que preparou com sucesso notável a filha, a atual rainha Elisabeth II, para
lhe suceder após sua morte, em 1952”.

É simples. Bertie teve a majestade (somada à dignidade humana) que Hitler, por exemplo, nunca teve! Esta é precisamente a mensagem e o contraponto do filme “O Discurso do Rei”.



Documento sem título

 
www.setor3consultoria.com.br
by Orbitaltec